quarta-feira, fevereiro 28, 2024
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Brasil vive “epidemia de câncer”; veja o que diz cientista sobre estratégia de controle

Em seu artigo, a médica brasileira Elisabete Weiderpass mostra que, apesar da evolução dos tratamentos de última geração, o número de mortes cresce cada vez mais no mundo inteiro, e no Brasil não é diferente.

*Elisabete Weiderpass / The Conversation

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As terapias avançadas, inclusive aquelas que utilizam a Inteligência Artificial (IA), são muito promissoras para a detecção, o diagnóstico precoce e o tratamento do câncer. A médio e longo prazo, essas tecnologias podem permitir tratamentos personalizados, identificar predisposições genéticas e melhorar os resultados dos pacientes. Mas, nas próximas décadas, esses novos tratamentos não serão capazes de reduzir o crescimento da doença.

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De acordo com dados do Global Cancer Observatory, da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC, na sigla em inglês), o órgão especializado em câncer da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de novos casos da doença no mundo deve crescer 56% em 20 anos, passando de 19,3 milhões em 2020 para um número estimado de 30,2 milhões em 2040. E o número de mortes deve passar dos 10 milhões em 2020 para 16,3 milhões em 2040, um crescimento de mais de 60%. E o mais impactante desses números é que até metade dos casos poderia ser evitada por meio da implementação eficaz de estratégias preventivas.

Nem mesmo os países com os sistemas de saúde mais bem preparados estão prontos para lidar com essa avalanche de novos casos. Mas não são eles que arcarão com os maiores ônus dessa epidemia: avaliações da IARC mostram que o crescimento mais significativo no número de casos e mortes deve ocorrer em países com menos recursos e que atualmente têm um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixo.

Os custos do tratamento do câncer e da mortalidade precoce pela doença se traduzem em um ônus econômico e social substancial, que logo se tornarão insuportáveis. Em nível global, o custo anual total com a doença é estimado em pelo menos US$ 1,2 trilhão, e esse número está aumentando. Entre 2020 e 2050, esse custo global deve chegar a US$ 25,2 trilhões (em valores de 2017), equivalente a uma taxa anual de 0,55% sobre o produto interno bruto global. Muitos países simplesmente não conseguirão administrar o ônus econômico do câncer.

Considerando os números alarmantes de casos previstos para os próximos 20 anos; as enormes perdas pessoais, sociais e econômicas causadas pela doença; e o fato de que até 50% de todos os casos poderiam ser evitados com intervenções preventivas, percebe-se que o investimento em pesquisa sobre a prevenção do câncer é a principal resposta para abordar a grande lacuna de conhecimento científico e enfrentar a epidemia da doença. A prevenção é, portanto, a estratégia de controle mais eficiente no longo prazo.

Riscos e prevenção

À medida que o status socioeconômico e o acesso à assistência médica melhoram, a carga de doenças de uma população tende a passar por uma transição epidemiológica: as doenças transmissíveis diminuem e a principal causa de mortes passa a ser as doenças não transmissíveis. Vivemos hoje uma transição epidemiológica, que teve início na segunda metade do século 20, e que é impulsionada também por fatores como o envelhecimento da população, a urbanização, as mudanças no estilo de vida e a exposição a poluentes ambientais.

A IARC mostrou que as doenças cardiovasculares (DCV) e o câncer são atualmente as principais causas de mortes prematuras em 127 países, sendo que as DCV lideram em 70 países (incluindo Brasil e Índia) e o câncer lidera em 57 países (incluindo a China). De acordo com as tendências recentes, o câncer pode ultrapassar as DCV como a principal causa de morte prematura na maioria dos países ao longo deste século.

Mapa mundial com países coloridos de acordo com o lugar que o câncer ocupa como causa de mortes prematuras
Ranking do câncer como causa de mortes prematuras no mundo. Crédito: Organização Mundial da Saúde (OMS), CC BY-SA

Entre os fatores de risco mais significativos para o câncer, o principal é o tabagismo, responsável por cerca de um terço de todas as mortes pela doença. O consumo excessivo de álcool, que em 2020 respondeu por mais de 740 mil novos casos da doença no mundo, é outro fator de risco importante para vários tipos de câncer, incluindo o de fígado, mama e colorretal. A falta de atividade física aumenta o risco de cânceres como os de cólon, mama e endométrio. A obesidade é fator de risco para câncer de mama, colorretal e pancreático. A exposição à radiação ultravioleta (UV) do sol ou de câmaras de bronzeamento artificial pode aumentar o risco de câncer de pele. Já a exposição a poluentes ambientais (como asbesto, arsênico e benzeno) e uma dieta rica em carne vermelha e processada, gorduras saturadas e trans e pobre em frutas, vegetais e fibras aumentam o risco de vários tipos de câncer.

No infográfico, estão marcados de vermelho as substâncias cancerígenas; de laranja as que são provavelmente cancerígenas; de amarelo as que são possivelmente cancerígenas e de azul as que não são classificadas como cancerígenas para humanos
Classificação de risco de substâncias que podem causar câncer. Crédito: IARC, CC BY-SA

O cenário brasileiro

No Brasil, o Novo PAC na Saúde, lançado em agosto de 2023 com promessas de investimentos da ordem de R$ 30,5 bilhões, terá a maior parcela de seus recursos voltada ao enfrentamento de gargalos na atenção especializada, como a melhoria do atendimento oncológico. Embora seja importante melhorar o atendimento especializado, como os serviços de oncologia, a alocação de recursos para a prevenção é igualmente crucial. As melhores políticas em todo o mundo se baseiam em uma combinação de detecção precoce, campanhas de saúde pública, intervenções no estilo de vida e acesso a cuidados de saúde acessíveis.

Várias ações importantes podem prevenir o câncer, incluindo a alfabetização das populações em saúde, para promover estilos de vida saudáveis; o aumento da conscientização sobre os riscos, a prevenção e as estratégias de detecção precoce do câncer, em especial dos grupos socialmente vulneráveis; a redução do consumo de tabaco e álcool; a redução da exposição a carcinogênicos ambientais e ocupacionais; a implementação de programas de vacinação (como, por exemplo, a vacina contra o HPV para o câncer do colo do útero); e o combate às informações falsas sobre assuntos como a vacinação ou as causas da doença.

A IARC mostrou que o maior crescimento na incidência e mortalidade por câncer deve ocorrer nos países com baixo IDH, que estão passando por grandes transições sociais, econômicas e demográficas. E essa desigualdade tende a aumentar, a menos que intervenções preventivas eficazes e economicamente efetivas sejam implementadas com urgência. A vacinação contra o HPV, por exemplo, será uma estratégia preventiva fundamental em ambientes de baixo IDH. O controle do tabaco é outra grande prioridade para o controle do câncer em países com menos recursos. E como a transição social e econômica aumenta a prevalência de empregos sedentários, a vida urbana e a alimentação e estilo de vida pouco saudáveis, existe uma oportunidade de prevenção para que os países menos desenvolvidos evitem fatores de risco de estilo de vida adversos conhecidos, como obesidade, atividade física limitada e alta ingestão de álcool.

O acesso a um tratamento adequado, acessível e equitativo também será crucial em ambientes com IDH mais baixo, especialmente porque a disponibilidade atual de medicamentos essenciais contra o câncer, de cirurgia oncológica e de instalações de radioterapia é escassa.

*Elisabete Weiderpass: Diretora da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde, International Agency for Research on Cancer (IARC) / Graduada em Medicina pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Doutora pelo Instituto Karolinska, na Suécia.

Diretora da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde, International Agency for Research on Cancer (IARC)

The Conversation
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