terça-feira, fevereiro 20, 2024
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Depressão e ansiedade: o que acontece quando se para de repente de tomar os remédios?

*Giulia Granchi / BBC News Brasil

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Cerca de 10% da população mundial sofre com transtornos mentais, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

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Na América Latina, o Brasil lidera entre os países com mais gente que relata ter ansiedade e depressão, com quase 19 milhões de pessoas.

Ao todo, 7% dos brasileiros dizem que sua saúde mental é precária ou muito ruim, segundo uma pesquisa do instituto Datafolha. O índice é maior entre mulheres (9%) e jovens entre 16 e 24 anos (13%).

Nesse cenário, a procura por remédios psiquiátricos vem aumentando. Entre 2017 e 2021, a venda cresceu 58%, segundo dados do Conselho Federal da Farmácia.

Outro levantamento recente, feito pelo Instituto Cactus e AtlasIntel, mostrou que, entre os 2.248 participantes (todos maiores de 16 anos), um em cada seis usavam remédios psiquiátricos.

Tão comum quanto usar esses remédios é parar de tomá-los de uma hora para a outra, dizem especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Muitas pessoas caem nesta cilada, muitas vezes, justamente porque os medicamentos estão fazendo seu efeito — a melhora pode criar a ilusão de que o problema está resolvido, segundo eles.

Em outros casos, efeitos adversos do tratamento podem levar uma pessoa a interromper abruptamente o tratamento.

Quem resolve parar de usar o remédio sem consultar o médico pode sofrer prejuízos imediatos e a longo prazo, afirmam os psiquiatras.

Os efeitos da interrupção abrupta do tratamento

Um único dia sem tomar remédios como os usados no tratamento de depressão e ansiedade já pode alterar sinais químicos do cérebro e provocar sintomas como enjoo, cansaço, tontura e sensação de “cabeça aérea”.

A intensidade destes sintomas depende do corpo de cada pessoa, que os sente de forma mais ou menos intensa.

Um estudo recente aponta que mais da metade (56%) das pessoas que tentam interromper o uso de antidepressivos têm sintomas adversos, e quase metade delas (46%) descrevem os efeitos colaterais como graves.

É a chamada “síndrome da retirada”, que pode ser causada pela interrupção do uso não só de antidepressivos e ansiolíticos, mas também de hipnóticos, antipsicóticos, estabilizadores de humor e estimulantes (incluindo remédios usados no tratamento de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Estes sinais dados pelo corpo podem passar depois de alguns dias.

Embora sejam desagradáveis, eles não são o maior risco de parar de repente de tomar um remédio.

“Há a possibilidade de que os sintomas originais retornem de forma intensa”, explica Vanessa Favaro, diretora do Serviço de Ambulatórios do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq-USP).

Elson Asevedo, psiquiatra e diretor técnico do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Universidade Federal de São Paulo (Caism/Unifesp), acrescenta outro efeito que ele costuma observar na prática.

Pacientes que tiveram uma resposta boa inicialmente a um medicamento podem responder de forma mais lenta ou apresentar resistência ao retomar um tratamento que foi interrompido abruptamente.

“Aumentar a dose ou trocar a medicação pode ser necessário em alguns casos, inclusive combinando múltiplos medicamentos diferentes”, diz Asevedo.

Por que pessoas param de tomar remédios ‘de um dia para o outro’?

O principal motivo que leva alguém a parar com um medicamento é o quadro que estava sendo tratado aparentemente se estabilizar.

“Quando se experimenta a melhora da depressão e da ansiedade, é natural sentir que os medicamentos não são mais necessários, já que os sintomas parecem ter diminuído”, explica Asevedo.

“Porém, a armadilha aqui é que essa melhoria nos sintomas muitas vezes ocorre antes da melhoria física no cérebro.”

O médico compara o cérebro a um computador, e a doença, a um programa instalado na máquina.

O tratamento remove o programa, explica ele, mas, para que o cérebro se proteja contra futuras recaídas, é necessário um período considerável de uso da medicação para que o cérebro crie novos caminhos para funcionar sem a influência da depressão.

“É recomendável que antidepressivos sejam usados por pelo menos 12 meses após a alta médica e pode chegar a até dois anos ou mesmo ser por tempo indeterminado, caso o paciente tenha tido dois ou mais episódios de depressão ao longo da vida”, afirma Antônio Geraldo, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Vanessa Favaro, do IPq-USP, diz que muitos pacientes não veem o tratamento como parte de uma busca contínua por saúde mental.

“Compreender a abordagem de longo prazo pode ser desafiador para alguns pacientes, especialmente quando estão angustiados. A busca por alívio imediato é natural, mas nem todo sofrimento exige apenas alívio momentâneo”, diz a médica.

“O entendimento do transtorno, suas bases biológicas e a manutenção da saúde mental ao longo do tempo são essenciais. É importante considerar não apenas a medicação, mas também outras ações, como a psicoterapia e técnicas de respiração.”

Outra razão bastante frequente para o abandono dos medicamentos são os efeitos indesejados sobre corpo.

“É relativamente fácil tolerar os efeitos colaterais de um antibiótico que só precisaremos tomar por sete dias”, diz Asevedo.

“Mas, quando se trata de um quadro depressivo que exige um tratamento contínuo de um ano, é muito mais difícil lidar.”

Entre os efeitos colaterais mais comuns dos medicamentos psiquiátricos, o médico cita:

  • Redução da libido;
  • Sonolência;
  • Ganho de peso;
  • Efeitos gastrointestinais;
  • Enjoo;
  • Náuseas;
  • Tremores.

Asevedo diz que os profissionais de saúde devem ficar atentos a isso e fazer com que os pacientes se sintam à vontade para relatar qualquer queixa.

Em casos assim, é importante discutir juntos as possibilidades.

“Eles podem considerar alternativas, como trocar o medicamento ou até mesmo introduzir um antídoto para mitigar efeitos colaterais”, diz Asevedo.

Como os medicamentos agem no cérebro

Os medicamentos usados no tratamento de transtornos mentais alteram os sinais elétricos transmitidos dentro do cérebro por meio de mudança na composição química do órgão.

“O cérebro é um computador que, em vez de cabos, tem neurônios. Mas esses neurônios não se conectam diretamente. Há um pequeno espaço entre eles, onde se encontram os neurotransmissores”, explica Asevedo.

Os neurotransmissores são substâncias químicas que possibilitam a transmissão elétrica de um neurônio para outro.

Serotonina, noradrenalina e dopamina são alguns dos neurotransmissores que regulam a passagem de sinais elétricos entre os neurônios.

Um transtorno mental costuma ocorrer quanto essas substâncias químicas estão desreguladas.

A depressão, por exemplo, é causada por um desequilíbrio de neutransmissores responsáveis pelo sentimento de prazer e bem-estar, apontam os especialistas.

Os medicamentos atuam então regulando a produção de neurotransmissores e aumentando a transmissão de sinais elétricos entre as células cerebrais.

Como parar de tomar um remédio psiquiátrico corretamente

É comum que uma pessoa que faz um tratamento psiquiátrico ache que estará fadada a usar esses medicamentos para sempre, diz Vanessa Favaro.

“Na maioria das vezes, isso não ocorre. Os tratamentos frequentemente têm início, meio e fim”, afirma a médica.

O final exige o que médicos costumam chamar popularmente de “desmame”, um processo que pode levar meses ou até mesmo anos.

“A retirada deve ser gradual para evitar mudanças abruptas no funcionamento cerebral”, afirma Favaro.

O primeiro passo, dizem os especialistas, é ter uma recomendação do médico que acompanha o paciente para fazer isso.

“A gente precisa primeiro que os sintomas tenham melhorado totalmente e que tenha passado seis meses a um ano dessa melhora”, diz Asevedo.

“Antes disso, o cérebro ainda não se recuperou e, provavelmente, os sintomas vão voltar.”

Aí então podem ser adotadas algumas estratégias, explica o psiquiatra, como passar a tomar o remédio em dias alternados ou reduzir progressivamente a dose.

“É importante consultar um psiquiatra para avaliar o mais adequado para o seu tipo de medicação e quadro”, conclui Favaro.

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