domingo, maio 26, 2024
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Dia de Reis: a história dos Reis Magos e da Estrela de Belém

Veja a análise

*Alexandre Cherman, Instituto Fundação João Goulart / The Conversation

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O Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro, é dia de desmontar o presépio, guardar a árvore de Natal e, enfim, dar por encerradas as comemorações do nascimento de Jesus. Para quem não é muito íntimo das tradições católicas, vale perguntar: por que 6 de janeiro? E, também, quem são esses reis?

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A resposta da segunda pergunta costuma estar na ponta da língua de muita gente: “são os Reis Magos!”. Mas, convenhamos, isso é só um nome; não explica muita coisa. Voltaremos a ela em instantes. Antes, porém, falemos do 6 de janeiro. Por que essa data foi consagrada como o Dia de Reis?

Embora ninguém saiba com exatidão histórica a data do nascimento de Jesus Cristo (nem o dia, nem o mês e, incrivelmente, nem o ano!), a tradição cristã fixou essa efeméride em 25 de dezembro. É o Natal.

Essa data, o 25 de dezembro, veio emprestada de tradições mais antigas, que celebravam o solstício de inverno do Hemisfério Norte, a noite mais longa do ano. Era o “Dia do Sol Invencível”. As noites iam ficando cada vez mais longas com a chegada do inverno. E no dia do solstício ocorria a mais longa de todas as noites. Ou seja, no dia seguinte o Sol começava a “se recuperar” em sua luta contra a escuridão. Daí o termo “sol invencível”.

Uma vez que a Igreja se apropriou do dia para celebrar o nascimento do Salvador, outras datas começaram a ficar amarradas. O início do ano foi fixado em 1º de janeiro, no que chamamos “estilo da circuncisão”: Jesus, como todo menino judeu, foi circuncidado sete dias depois do seu nascimento.

E, seguindo o texto canônico do Evangelho de Mateus, pouco depois disso o Filho de Deus foi visitado por três reis vindos de muito longe, para saudá-lo e lhe dar presentes. São os Reis Magos, que assim o teriam feito no dia 6 de janeiro do primeiro ano da Era Cristã.

(Importante relembrar: nada sabemos sobre essas datas do ponto de vista histórico. Repito: ninguém sabe quando Jesus nasceu!)

Pouca informação, muita invenção

E assim como não sabemos a data correta, também não sabemos quem foram esses reis. A única passagem da Bíblia que os menciona, o Evangelho de Mateus, na verdade não nos diz nem quantos eram. A dedução de que eram três fica por conta da inferência criativa de Orígenes de Alexandria, teólogo do século III. Ele supôs que, por terem trazido três presentes (ouro, incenso e mirra), os magos citados por Mateus eram três. Mas em nenhum lugar da Bíblia é dito isso:

“Depois de Jesus ter nascido em Belém da Judéia, no tempo do Rei Herodes, chegaram a Jerusalém magos do oriente que perguntaram: ‘Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo’”
Mateus, 2: 1-2

Percebam que não há nenhuma alusão a quantos eram esses Reis Magos. Além disso, em nenhum lugar da Bíblia eles são chamados de “reis”. Essa denominação é bem posterior, do século VII provavelmente, por uma interpretação retroativa do Salmo 72: 10: “Os reis de Társis e as ilhas ofertaram presentes…”.

Não eram três, não eram reis. E mesmo assim sabemos seus nomes: Baltazar, Gaspar e Melchior. Mas sabemos mesmo? O leitor atento já deve estar captando um padrão: não, não sabemos.

No século VIII começaram a surgir pinturas retratando três ilustres, e ricos, visitantes nas cenas da Natividade. Foi-se consolidando a ideia de “três reis”. E reis não podiam ficar no anonimato! Começaram, então, a surgir os primeiros nomes, sem fonte certa: Bithisarea, Melchior e Gathaspa. Segundo o padre Miguel Fuentes, do Instituto do Verbo Encarnado, “os nomes atuais de Gaspar, Melchior e Baltazar, foi-lhes atribuído no século IX pelo historiador Agnello, em sua obra Pontificalis Ecclesiae Ravennatis”.

E assim ficamos com os Três Reis Magos, Baltazar, Melchior e Gaspar.

imagem de uma nebulosa cósmica com suas estruturas
A Nebulosa do Caranguejo, um exemplo de remanescente de uma supernova, vista pelo Telescópio Espacial James Webb: até hoje não foi encontrada nenhum objeto como este que indique um explosão do tipo na época do nascimento de Jesus. NASA, ESA, CSA, STScI, Tea Temim (Princeton University)

E a Estrela de Belém?

Uma pergunta justa, que não foi feita na abertura deste artigo, mas nos parece óbvia agora, após a citação de Mateus é: que estrela foi essa que surgiu no oriente? É a Estrela de Belém, claro! Mas o que de fato teria sido esse astro?

A Astronomia tenta responder isso há séculos, sem sucesso. Há basicamente três possibilidades de eventos astronômicos que poderiam ser percebidos como uma “anunciação”, um augúrio. A Estrela de Belém poderia ser uma supernova. A Estrela de Belém poderia ser um cometa. A Estrela de Belém poderia ser uma conjunção planetária.

Uma supernova é um astro que surge no céu depois da explosão de uma estrela gigante. Tem esse nome porque geralmente esse astro aparece de repente, como uma “nova estrela” no céu. Nestes casos, a estrela original, que explodiu, apesar de grande, costuma estar tão distante que não era visível antes de explodir!

Explosões desse tipo deixam restos, as nebulosas, e até hoje não foi encontrada nenhuma nebulosa remanescente de supernova que traga evidências de uma explosão desse tipo na época do nascimento de Jesus. Próxima hipótese, então…

Cometas são objetos que vêm do Sistema Solar profundo, formados por gelo e poeira, que quando se aproximam do Sol (por aqui onde a Terra está) formam uma bela cauda que chama a atenção no céu.

Cometas podem ser periódicos ou não. Se a Estrela de Belém tivesse sido um cometa periódico, provavelmente este cometa já teria voltado à nossa região e teríamos calculado a sua órbita. Não há cometa periódico que se encaixe nessa narrativa. Se fosse um cometa aperiódico, que passa apenas uma vez e nunca mais, deveríamos ao menos encontrar relatos em fontes científicas da época falando sobre o aparecimento desse objeto celeste. Nada disso foi encontrado.

Por fim, restam-nos as conjunções planetárias, quando planetas se aproximam angularmente e podem ser vistos muito próximos um do outro no céu. Em 1614, ninguém menos que Johannes Kepler (1571-1630) – astrônomo e matemático alemão que formulou as três leis fundamentais da mecânica celeste que levam seu nome – defendeu que essa fosse a resposta.

Kepler, porém, partiu de um conceito completamente equivocado, de que a conjunção planetária dos planetas Júpiter e Saturno seria capaz de criar um novo astro no céu. De fato, no ano 7 antes do suposto nascimento de Cristo, ocorreu tal conjunção. Mas sabemos hoje que nenhum novo astro é criado a partir disso. E, também, que essa conjunção em particular não foi exatamente espetacular. A distância angular entre os planetas era maior do que dois diâmetros lunares.

Outras hipóteses

Vemos, então, que é difícil, no limite do plausível, defender uma efeméride astronômica real como explicação para a Estrela de Belém. Ofereço aqui outras três possibilidades, todas não astronômicas:

  1. Os Reis Magos, que não eram nem reis nem magos, eram certamente eruditos e estudiosos, vindos do Oriente (provavelmente da Pérsia, onde, muito antes, havia surgido a Astronomia). A citação a uma “estrela no oriente” pode simplesmente ser uma alusão à navegação astronômica. Para percorrer as grandes distâncias, os Reis Magos se orientaram pelo céu. (O verbo “orientar” vem justamente do conceito de Oriente!)
  2. Nessa época, a Astronomia e a Astrologia eram uma coisa só. Esses homens sábios do Oriente podem ter visto, em algum mapa astral de autoria própria, algo que interpretaram como um sinal. Um sinal astrológico vindo deles mesmos, no Oriente. Ou seja, uma “estrela no oriente”.
  3. E, por fim, essa “estrela no oriente” pode ser apenas uma metáfora, uma pincelada onírica trazida por Mateus. Há que se ressaltar que esse livro da Bíblia foi escrito, pelo menos, 50 anos depois dos eventos que relata (provavelmente mais tempo do que isso). Não seria incomum que houvesse uma certa liberdade criativa por parte de seu autor.

Independentemente do que foi a Estrela de Belém e de quem eram os Reis Magos, dia 6 de janeiro é Dia de Reis. E apesar de sabermos tão pouco sobre o que realmente aconteceu em tempos passados, temos uma certeza: é hora de “desenfeitar” a casa. Pelo menos dos enfeites de Natal.The Conversation

*Alexandre Cherman, Astrônomo, Instituto Fundação João Goulart

Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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