quarta-feira, fevereiro 28, 2024
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O que são seitas e por que as pessoas se juntam a elas?

A morte de mais de 80 integrantes de uma seita cristã no Quênia — que teriam sido levados pelo líder do grupo a jejuar até a morte — destacou os perigos que podem representar organizações do tipo.

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“Existe uma seita por perto onde quer que você esteja no mundo”, disse à BBC Alexandre Stein, psicólogo do Reino Unido especializado em extremismo ideológico e fenômenos sociais perigosos.

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Grupos como a Good News International Church, suspeito de estar por trás da tragédia no Quênia, atuam em todo o mundo e nem sempre têm religião como pano de fundo.

O que todos eles têm em comum é a capacidade de atrair seguidores — e, posteriormente, dificultar a saída das pessoas.

O que é uma seita?

A American Psychological Association (APA) define uma seita como um “grupo religioso ou quase religioso caracterizado por crenças incomuns ou atípicas, isolamento do mundo exterior e uma estrutura autoritária”.

Embora as seitas sejam frequentemente de natureza religiosa, também podem se organizar em torno de outros assuntos, como a política.

“É um mito que as seitas são apenas religiosas e extremistas”, explicou Richard Turner, um conselheiro que trabalha com membros atuais e que pertenceram a seitas.

“Seu próprio local de trabalho pode ser como uma seita se você for obrigado a se comprometer com coisas como trabalhar constantemente por mais horas”, acrescentou ele, observando também que alguns grupos de marketing de pirâmide implementam táticas de recrutamento muito semelhantes às seitas.

Quem decide entrar em uma seita?

Stein disse que as pessoas não devem julgar as vítimas de seitas, especialmente sobre a falta de formação educacional e habilidades sociais.

“As pessoas sempre querem dizer que entrar em uma seita é resultado de alguém ser estúpido e carente, mas o estudo sobre seitas mostra o contrário.”

Os líderes de um culto, acrescentou ela, querem recrutar “pessoas produtivas e inteligentes”, porque é mais provável que tragam recursos para o grupo.

“As seitas não querem pessoas que eles teriam que tomar conta.”

Stein advertiu que um dos mitos em torno das seitas é que as pessoas se juntam a elas conscientemente.

“Eles realmente não anunciam ‘venha e junte-se à nossa seita’. O apelo é perfeitamente benigno no início.”

No entanto, Stein aponta que as tragédias envolvendo um grande número de mortes, como o recente caso do Quênia, não são comuns no comportamento desses grupos.

“Não é como se os líderes da seita inicialmente pensassem que matariam todas aquelas pessoas.”

Stein disse que este não era o objetivo inicial do Heaven’s Gate, um movimento religioso dos EUA que ganhou as manchetes internacionais em 1997, quando 39 membros morreram em um pacto de suicídio, acreditando que seriam resgatados e ressuscitados por alienígenas.

“Marshall Applewhite, o líder do grupo, acreditava que tinha câncer e queria levar todas aquelas pessoas com ele.”

“Suicídio e assassinatos só vão acontecer se for isso que o líder pensa naquele momento específico.”

Exploração e maus-tratos, incluindo abuso sexual, são os perigos mais comuns.

Por que líderes de seitas são tão perigosos?

Em seus estudos sobre o comportamento de seitas, Stein descobriu que os líderes são invariavelmente figuras carismáticas que geralmente vêm de experiências semelhantes nas quais aprenderam a usar técnicas de persuasão para reunir seguidores.

“Eles aprendem os truques e seguem em frente quando acham que podem fazer as coisas sozinhos”, disse. “Líderes de culto não são estúpidos. Na verdade, eles são altamente inteligentes e cheios de energia, porque é preciso muito para fazer um culto funcionar.”

Os líderes de seita são em sua maioria homens, embora uma exceção famosa tenha sido Valentina de Andrade, uma clarividente no Brasil que liderou um grupo chamado Lineamento Universal Superior, que foi investigado e absolvido na década de 1990 por um incidente envolvendo uma série de assassinatos de crianças.

Por que as pessoas têm dificuldades de deixar uma seita?

De acordo com Turner, é “muito fácil” para uma pessoa ser atraída porque os líderes do culto são ótimos em “bombardeio amoroso” — uma tentativa de influenciar uma pessoa com demonstrações efusivas de atenção e afeto.

É algo que ele experimentou em primeira mão. Em 2013, ele foi atraído para o que chama de “culto cristão moderno” enquanto procurava um emprego trabalhando com vítimas de tráfico humano.

“Não importa quão rica, bem-sucedida ou inteligente seja uma pessoa, todos passam por uma oscilação em algum momento de suas vidas, como perda de emprego, luto ou outra mudança perturbadora”, explicou Turner.

“Então eles destroem sua autoestima, criando um vício e dando a você a droga. Uma seita sempre tentará isolá-lo de seus amigos e entes queridos para tornar mais fácil tirar vantagem de você.”

O conselheiro lembrou que em algum momento de seus “anos de seita” ele dava seu salário direto para a organização, tamanha era a influência deles em sua vida.

“Eu só os deixei porque eu desmoronei completamente, e as seitas geralmente perdem o interesse pelos seguidores quando isso acontece.”

Como perceber se uma organização é uma seita?

Turner adverte que não é fácil para as pessoas perceberem que uma organização é uma seita. Mas uma simples pesquisa na internet pode dar pistas.

“Veja o que as pessoas estão dizendo sobre um determinado grupo online, incluindo o próprio grupo. Aprendi que se um deles escreve algo discutindo ‘por que eles não são uma seita’, geralmente é porque eles são”, disse ele.

“Além disso, tenha cuidado se o grupo ao qual você se juntou começar a dizer coisas negativas sobre seus amigos e parentes e tentar fazer com que você se comprometa cada vez mais com as atividades, incluindo aquelas que exigem pagamentos.”

No entanto, o conselheiro acredita que a maneira mais eficaz é ouvir seus instintos.

“Confie no seu instinto”, diz ele.

Especialistas como Stein e Turner são rápidos em apontar que a prevenção é muito mais fácil do que remediar quando se trata de seitas. Ambos pedem um trabalho mais coordenado dos governos para manter seitas sob controle.

“Não estamos tomando as medidas [necessárias] para educar as pessoas sobre grupos perigosos”, disse Stein.

“Os governos geralmente ficam nervosos em tentar regulá-los, especialmente aqueles que se projetam como igrejas”.

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