quinta-feira, julho 25, 2024
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Sergio Massa e Javier Milei vão disputar o 2º turno na Argentina

No primeiro turno das eleições na Argentina, realizado no domingo (22), Sergio Massa, candidato da coligação governista e atual ministro da Economia, surpreendeu ao terminar na frente, mesmo não sendo o favorito. Ele irá disputar o segundo turno da eleição presidencial em 19 de novembro contra Javier Milei, um candidato populista de orientação libertária que havia vencido as primárias em agosto.

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A apuração dos votos deste domingo chegou a 98,51%. O resultado da votação dos dois candidatos mais bem colocados no primeiro turno foi:

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  • Sergio Massa, com 9,6 milhões de votos, ou 36,68% do total
  • Javier Milei, com 7,8 milhões de votos, ou 29,98% do total

Na Argentina, as regras eleitorais favorecem vitórias em primeiro turno, sendo que apenas duas vezes houve a realização de segundo turno desde a implementação das atuais regras em 1994. Em uma dessas ocasiões, em 2003, um dos candidatos abandonou a corrida, resultando na eleição do outro sem uma votação. Os argentinos só votaram em segundo turno em 2015.

Javier Milei era o favorito para vencer o primeiro turno devido à sua vitória nas primárias, onde as coligações políticas escolhem seus candidatos. A coligação de Sergio Massa ficou em terceiro lugar nas primárias, atrás de Patricia Bullrich.

A votação deste domingo demonstra que a corrente política dos peronistas, à qual Massa pertence, ainda possui força.

Eleitores de outros candidatos vão ser decisivos

Além dos dois finalistas, havia outros três candidatos na votação:

  • Patricia Bullrich, candidata da direita tradicional, com 23,83%;
  • Juan Schiaretti, um peronista do estado de Córdoba, com 6,78%;
  • Myram Bregman, candidata trotskista de esquerda, com 2,70%

Os eleitores desses três outros candidatos vão ser decisivos para o resultado final dessas eleições presidenciais.

Patricia Bullrich já deu sinais de que não vai apoiar Sergio Massa. Ela fez um discurso para admitir que perdeu e evitou parabenizar o vencedor, além de ter afirmado que não pode saudar alguém que fez parte do “pior governo da Argentina”. Ela disse que, nos últimos tempos, o governo atual só distribuiu dinheiro e afundou o futuro do país.

Sergio Massa: uma escolha de última hora

Sergio Massa, de 51 anos, o atual ministro da Economia da Argentina, enfrentou dificuldades dentro de sua própria coligação para se estabelecer como o candidato à presidência.

BUENOS AIRES – ARGENTINA, 22 DE OUTUBRO: O Ministro da Economia e candidato da União pela Pátria, Sergio Massa, fala à multidão, em Buenos Aires, Argentina, no dia 22 de outubro de 2023. Foi o candidato mais votado nas eleições gerais com 36,44% e estrelará um segundo turno com o libertário Javier Milei, que obteve 30,11%. (Foto de Mariano Sanchez/Anadolu via Getty Images)

Ele é considerado um dos políticos mais ortodoxos da frente União pela Pátria, a coligação governista.

Dias antes da data final de inscrição, o União pela Pátria afirmou que o candidato seria um outro ministro, Eduardo de Pedro, um aliado próximo da atual vice-presidente, Cristina Kirchner.

No dia seguinte, houve uma reviravolta. Massa foi anunciado como o principal candidato.

Uma ala mais de esquerda do União pela Pátria ainda lançou um pré-candidato, Juan Grabois. Massa e Graboi se enfrentaram nas primárias, a votação para decidir quem é o candidato.

Massa e o kirchnerismo

Massa é um peronista, ou seja, ele é da corrente política herdeira do ex-presidente Juan Domingo Perón, que foi presidente da Argentina três vezes no século 20.

Nos últimos 20 anos, o peronismo é dominado por uma corrente de esquerda, o kirchnerismo – aliados de Néstor e Cristina Kirchner, que foram presidentes do país a partir de 2003.

Massa teve uma relação ora próxima ora distante com os Kirchner.

Ele foi ministro dos governos de Néstor e Cristina, mas rompeu com os aliados e tentou se estabelecer como um peronista não kirchnerista. Em 2015, ele se lançou como candidato de oposição ao governo de Cristina. Massa acabou perdendo para um outro opositor, Maurício Macri.

A reconciliação com o kirchnerismo veio em 2019. Os peronistas, em um sinal de união, lançaram Alberto Fernández como candidato a presidente, Cristina Kirchner como vice e Sergio Massa como o primeiro nome da lista de deputados federais (no país, não se vota em uma pessoa para deputado federal, mas em uma frente política, e a ordem dos políticos que vão ocupar os cargos é elaborada pelos próprios dirigentes).

Eleito, Massa foi escolhido para a presidência da Câmara dos Deputados. Ele tem reputação de ser um político pragmático e um bom negociador.

Em agosto de 2022, ele assumiu o Ministério da Economia. A inflação estava descontrolada, e o país estava com dificuldade para fazer pagamentos ao FMI. A situação da inflação não melhorou nos últimos meses.

Início de carreira em partido de direita

Filho de um imigrante italiano, Massa começou a vida política em um partido conservador, a UCeDé. Na época, o peronismo (corrente política ligada ao ex-presidente Juan Domingo Perón) vivia uma fase de direita.

A UCeDé era da base do governo, e Massa acabou migrando para o peronismo. Ele foi eleito deputado federal em 1999, e, pela primeira vez, ficou no Legislativo até ser nomeado para um cargo no governo federal –dessa vez, foi para o órgão responsável pelas aposentadorias na Argentina.

Depois de trabalhar por anos no governo federal, ele e Cristina Kirchner romperam. Pouco depois, ele foi eleito prefeito da cidade de Tigre, perto de Buenos Aires.

Em 2015, na primeira vez que se candidatou à presidência, ele atacou bastante os governistas –Cristina ainda era a chefe do governo.

O que esperar de um eventual governo de Massa

Massa já afirmou que quer implementar políticas para recuperar o poder aquisitivo das famílias. Ele também disse que prentende implementar distribuição gratuita de medicamentos, incluir novos direitos nas leis trabalhistas, reformar o sistema educacional e implementar políticas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa e a poluição proveniente das indústrias de petróleo, gás e mineração. Além disso, Massa expressa a intenção de fortalecer as empresas estatais.

A maior dificuldade atualmente é a estabilização da economia. Como ministro da Economia, Massa enfrenta uma alta inflação, que atingiu 138% ao ano. Para enfrentar esse problema, ele diz que terá foco em fortalecer as exportações como uma fonte de entrada de divisas, o que, por sua vez, poderia ajudar o governo a estabilizar a moeda argentina, o peso.

Massa também planeja implementar cortes de gastos, incluindo a transformação de programas de assistência social em programas destinados a impulsionar o emprego formal. Ele quer, ainda, realizar uma reforma tributária para simplificar a arrecadação de impostos.

Javier Milei: o ultraliberal que surpreendeu

Javier Milei, de 53 anos, é um economista ultraliberal que lançou-se ao cargo de presidente da Argentina pela coligação A Liberdade Avança, que ele mesmo criou.

Javier Milei, candidato presidencial do partido Liberty Advances (LLA), fala durante um comício noturno eleitoral na sede do partido em Buenos Aires, Argentina, no domingo, 22 de outubro de 2023. A eleição da Argentina será decidida em um segundo turno presidencial entre Economia O ministro Sergio Massa, que desafiou as expectativas ao assumir a liderança nas eleições de domingo, e o forasteiro libertário Milei. Fotógrafa: Anita Pouchard Serra/Bloomberg via Getty Images

Ele ficou famoso na Argentina por suas participações em programas televisivos. Durante a pandemia, em protestos contra o confinamento que o governo havia imposto para evitar o contágio, o economista acabou se tornando um político.

Milei afirma que resolveu se tornar político por um chamado de Deus (ele é católico, apesar de ter criticado o Papa Francisco, dizendo que o líder da Igreja tem afinidade com comunistas assassinos).

Em seu discurso anti-establishment ele caracteriza os políticos como uma casta que seria a culpada pelos problemas econômicos argentinos. A pregação deu certo: multidões foram aos comícios dele, e os apoiadores, em sua maioria homens jovens, são eufóricos e participativos.

Em 2021 ele se candidatou ao cargo de deputado federal pela cidade de Buenos Aires e surpreendeu: o partido dele foi a terceira força mais votada.

O economista não teve um desempenho chamativo como deputado, mas continuou a atrair multidões. A Argentina vive dois grandes problemas econômicos:

  • A inflação está descontrolada
  • Faltam dólares no país

O que esperar de um governo Milei

A motosserra que Milei leva aos comícios representa uma de suas principais propostas eleitorais: a redução do tamanho do Estado argentino. Ele afirma que pode alcançar uma diminuição equivalente a 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Isso incluiria a redução do número de ministérios de 18 para 8, eliminando pastas como Cultura, Ciência e também Meio Ambiente – Milei é defensor da ideia de que o aquecimento global não é causado pela atividade humana.

Além disso, Milei expressou a intenção de retirar financiamento da Conicet, uma agência que financia pesquisas científicas na Argentina. Ele também pretende encerrar o Banco Central, embora seja notável que sua proposta de dolarização da economia não tenha sido detalhada em seu programa.

O candidato promete reformas no setor elétrico, uma abertura comercial radical e a privatização de empresas estatais como a YPF e a Aerolíneas Argentinas. Como católico praticante, Milei também é contrário à lei que descriminalizou o aborto no país e manifestou a intenção de tentar revertê-la. Ele quer, ainda, revogar algumas das leis sobre educação sexual no país.

O economista também afirma que vai dolarizar a economia, mas isso não consta em seu programa de governo.

Segundo Maria Esperanza Casullo, professora da Universidad Nacional de Río Negro, Milei fala da dolarização com uma ambiguidade estratégica, porque ele nunca se expressa claramente, e os assessores já deram sinais contrários ao plano.

“Ele nunca diz como essa dolarização aconteceria, qual seria o valor de referência ou os prazos da mudança, e esses sinais confusos permitem que a dolarização seja uma promessa, mas, ao mesmo tempo, se não ocorrer em um eventual governo dele, ele possa negar que tenha se comprometido com a dolarização”, diz ela.

O economista ainda quer criar um sistema de vouchers para a educação. Funcionaria assim: as escolas deixam de receber financiamento direto do Ministério da Educação. As famílias passam a receber um voucher para gastar na escola que escolherem.

Ele ainda quer reduzir a idade penal, liberar a venda de armas de fogo no país e proibir dificultar a entrada de estrangeiros.

*Com informações de g1

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