quarta-feira, fevereiro 28, 2024
spot_img
HomeDestaqueSETEMBRO AMARELO| “Tentei tirar a minha vida duas vezes, mas Deus colocou...

SETEMBRO AMARELO| “Tentei tirar a minha vida duas vezes, mas Deus colocou anjos em minha direção”, conta radialista


Para falar sobre o Setembro Amarelo, A Notícia traz a reportagem, mostrando que, doenças relacionadas à saúde mental precisam de tratamento profissional, como qualquer outra doença. Depressão não é fraqueza, não é frescura, não é falta de Deus. Depressão é coisa séria e precisa ser encarada e desmistificada. Aqui, o morador de Nova Venécia relata sua história, conta os momentos mais difíceis que precisou enfrentar em sua vida, e narra como está sendo sua rotina, após períodos de extremo agravamento em sua saúde mental

Publicidade


“Tentei tirar a minha vida por duas vezes. A primeira tem uns 10 anos. Eu tomei cinco caixas de um medicamento tarja preta. Eu lembro que, eu havia decidido acabar com minha dor e naquela noite, estava uma Lua linda, pensei que seria um dia bom para eu morrer. Não é fácil fazer isso, dói, o conflito do ir e ficar, é grande. Tomei as medicações e apaguei. Acordei dois dias depois, no Hospital Roberto Silvares, em São Mateus, amarrado em uma maca. Quando abri os olhos, estava um silêncio enorme, e vi que eu estava em ambiente todo branco, pensei que havia morrido mesmo. Mas fui me dando conta que não. Meu corpo estava todo dolorido, daí soube que eu tive momentos agressivos lá no hospital, quebrei algumas coisas, estava inconsciente, eu não me lembro de nada. Me levaram para lá para fazer uma lavagem estomacal. Fiquei sabendo que um amigo, o Valdecir Tartaglia, mais conhecido como Tartaruga Ninja, entrou em minha casa no dia seguinte que eu tomei a medicação, e já me encontrou com líquido saindo pela boca e olhos, nariz, foi quem me socorreu e, antes dele falecer, tive a oportunidade de agradecer por tudo que fez por mim. Eu estava em meu limite de estresse, estafa, cansaço físico e mental. Nessa época eu já estava antissocial, não queria ver e nem falar com ninguém. Mas não admitia que estava doente, que precisava de ajuda profissional. Antes, falava-se ainda bem menos do que agora, sobre a depressão e doenças psíquicas, e sendo assim, eu fui levando. Mesmo quase tirando a minha vida, não procurei tratamento. Eu ainda não acreditava que precisava pedir ajuda, que precisava de profissionais. A vida seguiu, eu acabei indo embora para a Inglaterra e fui morar com uma pessoa que eu gostava. Mas um dia comuniquei a ela que não estava dando mais, que eu tinha que vir embora, porque já estava em meu limite com a depressão de novo. Eu gostava dela, mas, essa doença te faz não querer conviver com ninguém, em não ver ninguém, te tira o chão, te tira tudo, te tira o seu eu, sua essencial, suas características, te tira sua personalidade. E aí, eu vim embora, ela não entendeu e não entende, claro. Havíamos combinado de construir uma vida juntos. Chegando aqui, me vi desempregado. As pessoas vão se afastando de você porque, ninguém quer conviver com alguém depressivo todos os dias, e é aí que, o profissional entra, ele quem pode te ajudar, mas eu não enxergava isso, eu achava que poderia resolver sozinho. Estava desgostoso de tudo, e a situação foi piorando, parei de conversar com a minha mãe, com quem eu morava, com meus irmãos, amigos, e me isolei do mundo. Eu não queria ver ninguém, queria só dormir por tempo indeterminado, queria tirar aquela dor de dentro de mim. E aí, comecei a planejar a tirar a minha vida, novamente. Me hospedei em um hotel aqui na cidade, e planejei que iria tirar a minha vida. Fiquei lá no hotel por um tempo pensando, esperando a hora de executar meu plano. Eu estava tremendo, suado, e o corpo doía muito, era da adrenalina, eu fiquei ali chorando, não dormi o resto da noite, o dia amanheceu, fui para o banheiro, ajoelhei, agradeci a Deus pela minha vida e pedi que me ajudasse. Sai de lá, paguei a conta, e fui embora. Eu não queria tirar a minha própria vida, ninguém quer fazer isso, a pessoa quer tirar aquela dor de dentro, que não acaba, que parece não ter fim. Uma amiga, que também já teve problemas de depressão, que e eu a ajudei em na situação que ela esteve, me colocou dentro da casa dela, me deixou como eu queria, em um quarto escuro lá, pedi que tirasse até a lâmpada, foi ela quem me conduziu para o tratamento. Comecei a tomar medicações, o processo foi longo, eu fiquei mais de um mês dentro daquele quarto escuro, sem falar com ninguém, tomava só suco de maracujá para dormir e os remédios. E as coisas foram clareando, amenizando, o tratamento dando certo. Eu que não sabia qual o som da minha voz mais, de tanto ficar calado naquele quarto, voltei a falar, era até estranho me ouvir de novo. E fui melhorando, ficando melhor, e me levantei. Hoje vejo que, sem ajuda profissional, nada daria certo, é preciso procurar ajuda. Seu amigo não vai poder te ajudar, nem sua família, isso é questão de saúde, entendam isso. Antes eu achava que a bebida alcóolica iria resolver o problema, as festas, que eu mesmo iria conseguir sair dessa sozinho, é ilusão. Creio que essa doença não tenha cura, mas tem maneiras de você conviver com ela. Hoje sei dos meus limites, sei até onde posso ir, sei que preciso de um tempo para mim, de momentos de paz e descanso. Sei que não posso conviver com certas pessoas, principalmente as tóxicas. Sei que certas situações não cabem para mim, eu aprendi a me ver, eu fiz muita terapia e foi um grande apoio. O que gerou a depressão em mim? Não sei, não tem uma fator, talvez são vários, mas, buscando conhecimentos sobre a minha vida, acho que pode ter sido desde o útero da minha mãe, ela sofreu muito. Hoje olho para trás e vejo que, se eu tivesse partido naquela época, quanta coisa eu teria perdido. Meu filho foi uma das melhores coisas da minha vida, cuidei dele por quatro anos, ele não mora mais no País. Sobre a vida? Eu gosto de viver. Hoje, com toda experiência e vivência, tenho uma visão diferente das coisas, da vida”
Néris José de Paulo, 53 anos, radialista, morador do bairro Aeroporto, em Nova Venécia

Publicidade

Setembro Amarelo

“Falar de prevenção ao suicídio é imprescindível citar da importância de cuidarmos da nossa saúde mental, especialmente no contexto atual que estamos vivenciando durante a pandemia da Covid 19. Desde março de 2020, quando foi declarada a pandemia da Covid, já se falava que nós viveríamos quatro grandes ondas: Sobrecarga dos sistemas de saúde, diminuição dos recursos em saúde , impacto da interrupção nos cuidados de saúde de várias doenças crônicas, aumento de transtornos mentais e do trauma psicológico provocados diretamente pela infecção ou por seus desdobramentos secundários. Não restam dúvidas de que estamos vivendo esta quarta onda, e é cada vez maior o número de pessoas que chegam aos serviços de saúde em sofrimento psíquico extremo. Não tem idade, sexo, cor ou religião. Importante ressaltar que não se trata de fraqueza, falta de Deus ou tantas outras causas que é bastante comum se ouvir por aí. Saúde mental é coisa séria e, não há como medir o sofrimento do outro. Por isso, é essencial que as pessoas busquem tratamento e que tenhamos políticas públicas voltadas para o enfrentamento desta questão. No nosso município é possível buscar atendimento através da Atenção Primária à Saúde, lá no postinho do seu bairro, e quando detectado sinais de adoecimento mais intensos, a unidade básica encaminha os usuários para o CAPS e, ao fazermos o acolhimento, quando detectado sinais de maior gravidade, encaminhamos este usuário para uma internação ou também encaminhamos para outros pontos da rede (assistência, educação, outros). Por fim, queremos destacar que durante todo este mês de setembro, estamos desenvolvendo várias ações em relação ao Setembro Amarelo, porque, o mais importante é a prevenção”
Suely Soares Alves de Souza, Assistente Social e coordenadora do Caps

» Equipe do Centro de Atenção Psicossocial (Caps), atende pessoas com transtornos mentais de diversos tipos
ARTIGOS RELACIONADOS
Anuncie Aqui!
Publicidade

EM DESTAQUE