segunda-feira, junho 24, 2024
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Um super-herói na guerra da República Dominicana

Seu João é morador de Nova Venécia, e depois de atuar por quase um ano em conflitos no País caribenho, resolveu abrir seu baú de fotografias e trazer à tona a versão sobre sua missão como soldado do Exército Brasileiro, no enfrentamento internacional

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Para a realização de um sonho, o morador de Nova Venécia, o seu João Alberto Santana, 74 anos, se alistou no Exército Brasileiro, e de quebra, conquistou outra façanha muito almejada por ele: participar de um confronto internacional. E foi na Guerra Civil na República Dominicana em 1965, que o aposentado e mais de 4 mil soldados brasileiros, desembarcaram na capital do País, em Santo Domingo, com a missão de estabelecer a paz.
Com arma em punho, uniforme militar e apenas com 19 anos, seu João participou de confrontos, na época em que o Brasil foi chamado para substituir os EUA. “Os soldados americanos já estavam lá e fizeram uma destruição total naquele País, muitas mortes, onde chegavam era atirando. Nós fomos para levar a paz, para agir com estratégia antes de confrontos. Então, os soldados americanos continuaram na missão, porém, nós que começamos a ficar em primeiro plano, naquele momento”, explica o ex-soldado.

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Orgulhoso por ter prestado serviço em nome do Brasil durante a guerrilha, seu João, que esteve na missão também como motorista, conta que os sete meses que viveu na República Dominicana, foi na maioria, envolto a tragédia. A também conhecida como, Revolução de Abril de 1965, foi cenário e moradia do seu João, que narra um pouco, de como passou quase um ano por lá. “Estava tudo destruído, os moradores que tinham dinheiro mudaram de lá, ficando só os pobres. A fome era absurda. Nós tínhamos comida, os EUA e o Brasil mandavam mantimentos para os soldados”, fala.

Entre muitas cenas tristes, o ex-militar afirma que presenciar crianças, idosos e toda a população que ficou na República Dominicana, implorar por comida. “Foi massacrante. Nosso acampamento era cercado, e em volta, chegavam as crianças e os outros, olhando a gente comer. Era de cortar o coração. Eu sempre dei comida a eles, pegava a minha e entregava nas mãos deles todos os dias, mas nem todo soldado fazia isso. Entre nós tinha gente de todo tipo, inclusive soldado que trocava a comida, por sexo com aquelas crianças e adultos. Nós tínhamos abundancia de alimentos e ver uma população morrer de fome em sua frente, era de cortar o coração de qualquer um”, relata.


Exército Brasileiro

Ao se alistar no Exército Brasileiro, seu João foi para o Rio de Janeiro, no Quartel do bairro Deodoro, na Regimento Escola de Infantaria Companhia de Carros de Combate Médio. O então militar, já trabalhava como motorista, em Vitória.

Com o País convocado para participação na República Dominicana, o então presidente do Brasil na época, Castelo Branco, enviou soldados brasileiros para “assegurar a paz” na República Dominicana.

A guerrilha na República Dominicana terminou em 1966, com a participação, com exceção a dos soldados americanos, a maior parte era de soldados brasileiros, que na maioria eram jovens recrutas, incumbidos de participar do destacamento brasileiro de uma força montada pela Organização dos Estados Americanos (OEA).


Retorno e direitos

Nascido em Colatina, seu Antônio voltou para o Brasil após a missão finalizada e bem sucedida. Depois de permanecer ainda um tempo no exército no Rio de Janeiro, retornou para o Espírito Santo, na casa dos pais, em São Domingos. Foi apenas na década de 1970, que ele veio morar em Nova Venécia, local onde conheceu a esposa, a professora aposentada, Maria Inês Ferrari Santana, com quem têm três filhos, a Josielly, o Joilson e o Josiel, mais conhecido como Biel da Farmácia.

Após a guerrilha o Exército Brasileiro contabilizou cerca de quatro mortos de seu contingente de soldados, mas muitos feridos e mutilados.

Mesmo tendo lutado, combatido e cumprido a missão de paz na guerra civil da República Dominicana, os soldados brasileiros não receberam seus direitos pelo trabalho prestado à Pátria. Desde então, muitos deles vêm batalhando junto ao governo brasileiro, para o reconhecimento que consideram de direito e uma pensão semelhante à recebida pelos soldados que lutaram na 2ª Guerra Mundial (1939-1945) – o benefício a esses últimos foi garantido pela Constituição de 1988.

De acordo com documentos, iniciativas para conceder pensão especial aos ex-militares, foram barradas pela Justiça e pelo Congresso, que apontam inconsistências legais no pleito. “Meu filho tem procurado os direitos que eu teria, mas nada até hoje foi conseguido. Não fomos passear na República Dominicana. Cumprimos nossa missão com orgulho e honra, trabalhamos pela Pátria”, finaliza.


A guerrilha e a história

Na ocasião, a República Dominicana vivia um período de forte instabilidade política, após o assassinato do ditador dominicano Rafael Trujillo, em 1961. Trujillo acabaria sucedido por Juan Bosch, do Partido Revolucionário Dominicano, eleito presidente em dezembro de 1962. Mas Bosch comandaria o país por pouco tempo. Ao lançar mão de políticas inclinadas de esquerda, como reforma agrária e nacionalização de empresas estrangeiras, ele foi alvo de um golpe militar de direita, sete meses depois de iniciar de seu mandato. A Constituição do País foi abolida e o poder entregue a um triunvirato. Um grupo de jovens oficiais das Forças Armadas, pró-Bosch, conhecidos como “Constitucionalistas”, rebelou-se contra o triunvirato, exigindo o regresso do presidente constitucionalmente eleito. O próximo passo foi distribuir armas à população, resultando na criação de esquadrões armados, os chamados “Comandos”. No meio desse fogo cruzado estavam os civis, indo dos rebeldes a comunistas -, e, posteriormente, os soldados estrangeiros, entre eles brasileiros, também mais de 30 mil homens dos EUA, outros poucos de Honduras, Paraguai, Nicarágua, Costa Rica e El Salvador.

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