domingo, fevereiro 25, 2024
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Veloz, furiosa e brutal: a vida curta do leão macho

Leões são animais muito mais vulneráveis do que pensamos: metade deles morre já no primeiro ano de vida.

*Alexander Richard Braczkowski, Duan Biggs, Peter Lindsey / The Conversation

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A morte de um leão nas pitorescas savanas do Quênia raramente comove as pessoas, mesmo em um país onde o turismo de vida selvagem é um pilar da economia nacional. Mas quando um dos mais famosos da reserva queniana Masai Mara foi morto em 24 de julho de 2023, a notícia ecoou.

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Jesse, como era conhecido, morreu atacado por três machos de um clã rival, o que atraiu holofotes para a vida brutalmente arriscada e perigosa dos leões machos.

Diferente de outros felinos, os leões se organizam em grupos familiares, os bandos. Cada bando é composto por várias leoas com algum parentesco entre si. Um ou mais machos adultos também estarão presentes. No imaginário popular, são o icônico rei da selva. Ferocidade, força e tamanho (somente os tigres são maiores) se encaixam no perfil.

Mas, na realidade, são animais muito mais vulneráveis do que pensamos. Metade deles morre já no primeiro ano de vida. Desde o momento em que nasce, o leão macho enfrenta uma série de desafios, desde picadas de cobra e hienas famintas até o chamado infanticídio animal, cometido por outros machos da espécie.

Se conseguir sobreviver ao primeiro ano, ele se torna independente por volta dos três, quando deixa o bando para um período de nomadismo. Os nômades têm uma existência perigosa, contornando os territórios das coalizões de machos estabelecidas. Por conta própria, poucos completam 10 anos de idade.

Um jovem leão macho descansa nos galhos de uma árvore no setor de Ishasha, em Uganda. Esse filhote em particular era filho de um clã de três leões machos. Courtesy: Alexander Richard Braczkowski

Em nenhum momento, ao que parece, o leão macho está seguro. Sabemos, de acordo com o Fundo para a Vida Selvagem do Quênia (Kenya Wildlife Trust), guias e turistas, que Jesse conduzia e recebia muitas surras de outros leões. Sabemos também que ele chegou até a idade madura de 12 anos, quando foi atacado e morto por três machos mais jovens e mais fortes. A vida fecha o círculo: os assassinos frequentemente se tornam vítimas deles mesmos, de pares mais jovens e mais fortes, ou daqueles que fazem parte de coalizões maiores e, portanto, mais poderosas.

Somos três pesquisadores que, juntos, somamos mais de 50 anos de experiência combinada em ecologia de grandes felinospreservação e complexidades da convivência entre seres humanos e animais selvagens.

Para este artigo, analisamos informações compiladas por organizações dedicadas à preservação, cientistas independentes e guias de turismo que trabalham no parque Masai Mara. Ao longo de seus 12 anos, Jesse foi monitorado e acompanhado por esses especialistas.

Muitas vezes, a sobrevivência dos leões machos é ditada pelo tamanho e pela força de suas coalizões e pelas condições do cenário. Isso porque, às vezes, os leões escapam dos parques nacionais ou são caçados após atravessar os limites de uma área protegida, o que influencia na preservação da espécie.

A via crucis de um jovem leão

A maior ameaça para um leão jovem é a presença de outros machos que não sejam seu pai ou tio. Uma série de estudos, desde o parque Serengeti, na Tanzânia, até o Zimbábue, mostra que a principal causa de mortalidade de leões no primeiro ano de vida é atribuída aos machos adultos que os matam em infanticídios, um comportamento comum entre algumas espécies de mamíferos.

Isso envolve machos à procura de filhotes para matar em ataques para assumir o controle de um bando. Matar a cria acelera o início do cio nas fêmeas do grupo, aumentando as chances de sucesso na reprodução dos recém-chegados.

A maioria dos leões atacados e expulsos da família não sobrevive se são muito jovens.

Os que sobrevivem permanecem na prole até os 3 anos, quando deixam a família para viver o período nômade. Nessa etapa, eles se juntam a primos, irmãos e, às vezes, a machos sem parentesco de idade semelhante para formar o que biólogos chamam de “coalizões”, como clãs ou gangues. Seu poder aumenta drasticamente conforme o tamanho do grupo. Mede-se tal poder pelo número de bandos governados, pela quantidade de descendentes gerados e pela frequência de vitórias nas violentas batalhas para defender seus redutos do ataque de outros machos e suas gangues.

A desvantagem de coalizões maiores é a redução das oportunidades de reprodução de um leão macho.

Exemplos de poderosas coalizões incluem a Mapogo, com seis machos, e a Majingilane, com cinco, na África do Sul. Há também a Lake Quintet (Quinteto do Lago) da Cratera de Ngorongoro, na Tanzânia. Uma desvantagem das coligações maiores, no entanto, é a redução nas oportunidades reprodutivas para cada macho, se são muitos.

Em contraste, Jesse tinha apenas um parceiro, conhecido como Frank. Os dois eram fortes o bastante para expulsar a dupla Dere e Barrikoi do grupo Offbeat em maio de 2014. Depois que Frank desapareceu, Jesse abandonou Offbeat para levar um estilo de vida amplamente nômade, exceto quando tentou, sem sucesso, assumir o bando Rakero e lutou inclusive contra o próprio filho, Jesse 2.

A coalizão de cinco leões machos de Birmingham no Parque Nacional Kruger, na África do Sul. O grupo estava sempre em conflito com outras gangues poderosas, inclusive a famosa Majingilane.

Três leis da natureza selvagem

  • Acasalar
  • Proteger
  • Lutar

Esses são os três princípios pelos quais a maioria dos machos vive e morre no reino animal, uma verdade ainda mais literal entre os leões. No auge da vida, entre 5 e 9 anos de idade, os machos tentam ter o maior número possível de filhotes. E farão de tudo para vigiar e proteger o maior reduto possível sob seu domínio.

No entanto, há uma linha tênue entre governar muitos leões diferentes e ser capaz de defender a todos seus filhotes. As disputas entre machos são geralmente por direitos territoriais e reprodutivos.

Às vezes, são meras brigas entre companheiros de gangue. Ainda assim, podem piorar ao ponto de dividir os próprios bandos. Mas, na maioria dos casos, as batalhas se dão entre gangues rivais. São nelas que os leões demonstram as habilidades corporais, incluindo olfato, postura, rugidos e rosnados, golpes e mordidas, e até mesmo micção para demarcar o território.

O leão Michael descansa com seus dois filhos nas planícies de Kasenyi do Parque Nacional Rainha Elizabeth, em Uganda. Michael matou várias ninhadas de filhotes nessa área, onde tomou o controle após deixar a zona sul.

E as leoas?

Quando se trata da preservação da espécie, é importante olhar para as leoas, especificamente a quantidade delas em um grupo e, mais importante, a proporção entre leões e leoas. Elas são as sentinelas da saúde demográfica desses animais. Populações saudáveis costumam ter duas fêmeas para cada macho. Mas, quando estão sob pressão devido à caça ilegal, matanças ou escassez de alimentos, a taxa se inverte.

A história de Jesse mostra como, apesar do status de rei da selva, os leões são vulneráveis. E embora a causa de sua morte tenha sido outro leão, ainda é mais comum que leões morram nas mãos de seres humanos. São alvejados ou envenenados para proteger criações de gado ou retirar algumas partes de seus corpos, como dentes e garras, além de cair em armadilhas para outros animais selvagens, caçados ilegalmente pelo valor da carne.

Mas talvez conhecer a fascinante dinâmica dos bandos e as atribuladas provações de cada leão pode ajudar a sensibilizar as pessoas sobre a necessidade de preservar a espécie, e os animais selvagens em geral. O Quênia mantém uma grande população de leões e um conjunto de áreas icônicas da vida na natureza selvagem, orgulho para muitos quenianos, e com razão.

*Alexandre Richard Braczkowski: Sou um biólogo da vida selvagem que trabalha na conservação de grandes mamíferos carismáticos e no conflito entre animais selvagens e humanos. O meu doutoramento examinou a situação e o conflito dos leopardos africanos, das hienas pintadas e dos leões em duas regiões do sudoeste do Uganda. Tenho uma afinidade especial com grandes felinos e tive a sorte de filmar e estudar leopardos, leões e onças em três continentes e em sete locais de campo. Quando não estou envolvido em trabalho de pesquisa, atuo como cinegrafista e fotógrafo para a revista National Geographic e para a televisão.

*Duan Biggs: Minha pesquisa e trabalho são aplicados e focados em ter uma política no mundo real e impacto no terreno. Trabalho numa série de questões de conservação, incluindo a gestão de cadeias de abastecimento globais para resultados de biodiversidade, navegando na complexidade da crise do comércio ilegal de vida selvagem na conservação, turismo baseado na natureza, conservação baseada na comunidade e o desenvolvimento de economias da vida selvagem e da biodiversidade. Trabalho em estreita colaboração com a IUCN, WWF e outras agências para garantir que a minha investigação atenda às necessidades políticas e de gestão. Fui nomeado adjunto do Centro de Saúde Planetária e Segurança Alimentar da Universidade Griffith e do Centro de Transições de Sustentabilidade da Universidade Bat Stellenbosch, na África do Sul.

*Peter Lindsey: Sou pesquisador associado da Griffith University, Austrália, e diretor do Lion Recovery Fund (uma iniciativa da Wildlife Conservation Network). Estudei Zoologia na Universidade de Oxford, no Reino Unido, e posteriormente fiz mestrado e doutorado no Mammal Research Institute, Universidade de Pretória.

The Conversation
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